Tem um Yellowstone embaixo da Toscana
Cientistas mapearam 6.000 km³ de magma sob a Toscana usando o barulho do próprio planeta. O achado explica por que a usina geotérmica mais antiga do mundo funciona desde 1904, e chega quando a IA está comprando energia que não dorme.

Em 1904, um príncipe italiano chamado Piero Ginori Conti ligou um dínamo de 10 quilowatts ao vapor que saía do chão em Larderello, na Toscana, e acendeu cinco lâmpadas.¹ Foi a primeira vez que alguém produziu eletricidade a partir do calor da Terra. Em 1913 nasceu ali a primeira usina geotérmica comercial do planeta, de 250 quilowatts, alimentando trens e as vilas vizinhas.² Hoje são 34 usinas operadas pela Enel Green Power, cerca de 1.100 megawatts instalados e aproximadamente 6 terawatts-hora por ano.²
Cento e vinte anos depois, alguém finalmente olhou direito para o que existe embaixo.
A resposta saiu em abril na Communications Earth & Environment: um corpo de magma de cerca de 6.000 quilômetros cúbicos, entre 8 e 15 quilômetros de profundidade, comparável em volume ao sistema de Yellowstone.³ ⁴ Ele estava ali o tempo todo, sem cone, sem cratera, sem fumarola espetacular, debaixo de uma das paisagens mais mansas da Europa.
Como se enxerga magma sem furar o chão
A técnica se chama tomografia de ruído ambiental, e a ideia por trás dela é elegante.
A Terra nunca fica quieta. Onda batendo na costa, vento, trânsito, máquina industrial: tudo isso gera uma vibração de fundo constante e fraca, o tipo de sinal que um sismólogo normalmente descarta como ruído. A sacada é usar esse ruído como se fosse o "flash" de uma tomografia. Vibração viaja mais devagar em rocha quente e parcialmente derretida do que em rocha fria e sólida. Se você espalha sensores pela superfície e mede com precisão quanto tempo o ruído leva para atravessar cada trecho do subsolo, dá para montar um mapa tridimensional de onde a rocha está mole.
A equipe da Universidade de Genebra, do CNR-IGG e do INGV usou cerca de 60 sensores de alta resolução espalhados pela região.³ ⁴ Nenhuma perfuração, nenhuma explosão, nenhum equipamento pesado: só escuta paciente do barulho que o planeta já faz de graça.
O resultado tem valor além da curiosidade geológica. Como resume Matteo Lupi, que liderou o trabalho, o método serve tanto para pesquisa básica quanto para "localizar reservatórios geotérmicos ou depósitos ricos em lítio e terras raras".⁴ Traduzindo: a mesma técnica que achou o magma pode achar onde vale a pena perfurar, e onde não vale.
Devo me preocupar com um supervulcão?
Não. E é importante explicar por quê, porque "Yellowstone" no título faz o cérebro pular direto para o filme catástrofe.
Os autores são explícitos: embora esse corpo de magma pudesse, em teoria, contribuir para a formação de um supervulcão ao longo de escalas de tempo geológicas, ele não representa ameaça atual.⁴ A profundidade ajuda. Magma a 8 ou 15 quilômetros, parcialmente cristalizado, sem caminho aberto até a superfície e sem sinais de recarga rápida, é um sistema em resfriamento lento, não uma panela prestes a estourar.
O que muda com o estudo é o entendimento do motor. Larderello sempre foi tratada como uma anomalia geotérmica excepcionalmente quente, e agora se sabe de onde vem esse calor todo: de um volume de rocha derretida muito maior do que se supunha logo abaixo.
Por que isso importa exatamente agora
Aqui a geologia encosta na notícia de tecnologia. Datacenter de IA precisa de energia firme, quer dizer, energia que funciona às três da manhã, no inverno, sem vento e sem sol. Solar e eólica são baratas e limpas, mas intermitentes; bateria resolve horas, não estações. Geotermia é a renovável que roda 24 horas por dia sem depender do clima, e por isso virou objeto de desejo das empresas que estão construindo capacidade de IA.
Não é discurso: já tem contrato assinado.
- O Google começou pequeno, com o Project Red, um piloto de 3,5 megawatts operado pela Fervo Energy em Nevada, que entrou em operação em novembro de 2023 e passou a mandar eletricidade para a rede que abastece seus datacenters.⁵ O piloto virou contrato grande: a companhia elétrica NV Energy leva agora 115 megawatts de geotermia avançada 24 horas por dia para as operações do Google no estado.⁶ ⁷
- A Meta assinou dois acordos de 150 megawatts cada, um com a Sage Geosystems e outro com a XGS Energy, este último no Novo México, com a primeira fase de 5 megawatts prevista para cerca de 2027 e o restante até 2029. A tecnologia da XGS opera sem consumo de água e entrega na rede da PNM, que atende os datacenters da empresa no estado.⁸ ⁹
Duas coisas que a imprensa costuma misturar merecem separação. Larderello é geotermia convencional de alta entalpia: existe vapor natural no subsolo e você o aproveita. Os projetos americanos são geotermia estimulada ou avançada, em que se perfura rocha quente e seca e se cria artificialmente o circuito por onde a água circula. A primeira depende de um lugar geologicamente privilegiado; a segunda tenta funcionar em qualquer lugar quente o bastante, e é justamente por isso que atrai investimento.
O elo entre as duas histórias é o mapa. Saber onde estão os corpos de magma na crosta, e a que profundidade, é o que separa perfuração cara e às cegas de perfuração dirigida. Uma técnica que faz isso ouvindo o ruído do planeta, sem furar nada, muda a economia da prospecção.
O lado ruim que a indústria evita mencionar
Geotermia estimulada tem um histórico que merece estar na conversa.
Em dezembro de 2006, um projeto em Basileia, na Suíça, provocou um sismo de magnitude local 3,4 seis dias após o início da estimulação hidráulica. A operação foi suspensa na hora pelo protocolo de segurança, e o projeto acabou cancelado em 2009.¹⁰ Em 15 de novembro de 2017, a cidade de Pohang, na Coreia do Sul, sofreu um terremoto de magnitude 5,4 que a literatura científica associa à estimulação de um sistema geotérmico local, o maior sismo induzido já registrado em um projeto desse tipo. O projeto foi cancelado.¹¹
Não é argumento para abandonar a tecnologia, e a própria literatura evoluiu bastante desde então, com protocolos de semáforo sísmico e diretrizes de boas práticas.¹⁰ É argumento para desconfiar de qualquer apresentação que trate geotermia avançada como energia limpa sem contrapartida. Injetar fluido a alta pressão em rocha fraturada mexe com falhas geológicas, e isso precisa ser gerenciado, monitorado e comunicado a quem mora em cima.
E o Brasil, que não tem vulcão mas tem outra carta
O Brasil não vai ter um Larderello. A geologia do país, longe de bordas de placa ativas, não oferece reservatórios de alta entalpia; nossa geotermia é a de baixa temperatura, útil para termalismo e climatização, não para gerar centenas de megawatts.
Só que a corrida por datacenter de IA não premia só quem tem vapor no subsolo. Premia quem tem energia limpa, firme e barata, e aí a matriz brasileira é um ativo raro: 88,2% de participação renovável em 2024, segundo o Balanço Energético Nacional.¹²
O país tentou transformar isso em política industrial com o Redata, o regime tributário especial para datacenters ligado à Política Nacional de Data Centers, que exige 100% de energia de fontes limpas ou renováveis e um indicador de eficiência hídrica de no máximo 0,05 litro por quilowatt-hora, com verificação anual.¹² ¹³ A medida provisória que criou o regime caducou em fevereiro de 2026, e o assunto agora depende de um projeto de lei em tramitação no Senado.¹² A associação do setor estima potencial de US$ 92 bilhões em investimentos até 2031.¹²
Repare no contraste. Nos Estados Unidos, empresa de tecnologia está bancando do próprio bolso a comercialização de uma tecnologia de geração inteira porque precisa de elétrons firmes. No Brasil, temos os elétrons limpos e estamos travados na parte tributária. São gargalos diferentes, e o nosso é o mais fácil de destravar, o que de certo modo é pior: significa que a demora é escolha.
O que os dois lados dizem
Entre geólogos e gente de energia, o achado da Toscana caiu bem, com uma ressalva metodológica.
O entusiasmo é com o método. Tomografia de ruído ambiental é barata, não invasiva e escalável, e a possibilidade de usá-la para mapear reservatórios geotérmicos e depósitos minerais tem aplicação imediata em prospecção. Quem trabalha com energia gostou por outro motivo: a geotermia passou anos sendo tratada como a renovável esquecida, e agora acumula contrato bilionário de datacenter e ferramenta nova de exploração.
A ressalva vem de quem lida com inversão sísmica no dia a dia. Estimar o volume de rocha derretida a partir de velocidade de onda envolve premissas sobre temperatura, composição e fração de fundido, e essas premissas mudam o resultado. Chamar o corpo de "comparável a Yellowstone" é comparação de volume, não de risco nem de comportamento eruptivo, e a comparação viaja mais rápido que a nota de rodapé. Como sempre em geofísica, o número é uma medição indireta com barra de erro, não uma leitura de régua.
Veredito
Duas coisas boas aconteceram aqui ao mesmo tempo, e vale não confundir uma com a outra.
A primeira é científica e sólida: uma equipe transformou o barulho de fundo do planeta em um mapa tridimensional do subsolo e descobriu que a mais antiga usina geotérmica do mundo funciona há 120 anos sobre um volume de magma muito maior do que se imaginava. O trabalho está publicado, com DOI, e é um bom exemplo de instrumento barato batendo perfuração cara.³
A segunda é econômica e ainda em aberto: a geotermia virou aposta de infraestrutura de IA, com contratos reais e prazos que só se cumprem no fim da década. Se a tecnologia entregar, os datacenters vão ter conseguido o que solar e eólica sozinhas não dão, que é energia limpa às três da manhã. Se não entregar, vai ter sido caro.
A parte curiosa é o encaixe. A resposta do primeiro problema (achar calor no lugar certo) pode vir de escutar o planeta com sessenta sensores e um bom algoritmo, em vez de furar buracos de milhões de dólares até acertar. Não é sempre que a ciência básica publica um método com aplicação comercial tão direta. Nesse caso, publicou.
Fontes
- Larderello, Italy celebrates 120 years of geothermal electricity generation · ThinkGeoEnergy · https://www.thinkgeoenergy.com/larderello-italy-celebrates-120-years-of-geothermal-electricity-generation/ · 2024.
- Larderello: the oldest geothermal power plant in the world · Power Technology · https://www.power-technology.com/features/oldest-geothermal-plant-larderello/ · 2024.
Mostrar mais 11 fontesOcultar fontes
- Lupi, M. et al. High-Enthalpy Larderello Geothermal System, Italy, Powered by Thousands of Cubic Kilometres of Mid-Crustal Magma · Communications Earth & Environment · DOI 10.1038/s43247-026-03334-0 · 15/04/2026.
- Super Magma Reservoirs Discovered Beneath Tuscany · Université de Genève (UNIGE) · https://www.unige.ch/medias/en/2026/des-super-reservoirs-de-magma-decouverts-sous-la-toscane · 14/04/2026.
- Google and Fervo launch first-of-its-kind geothermal project · Google (blog oficial) · https://blog.google/company-news/outreach-and-initiatives/sustainability/google-fervo-geothermal-energy-partnership/ · 2023.
- NV Energy seeks new tariff to supply Google with 24/7 power from Fervo geothermal plant · Utility Dive · https://www.utilitydive.com/news/google-fervo-nv-energy-nevada-puc-clean-energy-tariff/719472/ · 2024.
- Google to increase geothermal power supply to data centers via Nevada utility · ThinkGeoEnergy · https://www.thinkgeoenergy.com/google-to-increase-geothermal-power-supply-to-data-centers-via-nevada-utility/ · 2024.
- XGS Energy and Meta to Partner on 150 MW Advanced Geothermal Project · Business Wire (comunicado oficial) · https://www.businesswire.com/news/home/20250612778008/en/XGS-Energy-and-Meta-to-Partner-on-150-MW-Advanced-Geothermal-Project · 2025.
- XGS Energy and Meta to develop 150-MW geothermal power project in New Mexico · ThinkGeoEnergy · https://www.thinkgeoenergy.com/xgs-energy-and-meta-to-develop-150-mw-geothermal-power-project-in-new-mexico/ · 2025.
- Zhou, W. et al. Managing Induced Seismicity Risks From Enhanced Geothermal Systems: A Good Practice Guideline · Reviews of Geophysics · DOI 10.1029/2024RG000849 · 2024.
- Kim, K.-H. et al. Assessing whether the 2017 Mw 5.4 Pohang earthquake in South Korea was an induced event · Science · DOI 10.1126/science.aat6081 · 2018.
- Estagnação regulatória do Redata ameaça investimentos em data centers no Brasil · Portal Information Management · https://docmanagement.com.br/07/01/2026/estagnacao-regulatoria-do-redata-ameaca-investimentos-em-data-centers-no-brasil/ · 07/01/2026.
- Medida provisória busca impulsionar instalação de datacenters no Brasil · Câmara dos Deputados · https://www.camara.leg.br/noticias/1201670-medida-provisoria-busca-impulsionar-instalacao-de-datacenters-no-brasil/ · 2025.
— Redação